Ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição genética. Che Guevara

sexta-feira, 22 de julho de 2011

na Gaveta
dos adesivos nunca usados,  
das cartas nunca enviadas, 
dos contos e poesias nunca encontrados,
do tempo nunca aproveitado,
das músicas nunca cantadas,
das fotografias nunca tiradas,
das lágrimas nunca choradas,
dos sorrisos nunca dados,
das lições nunca aprendidas,
dos machucados nunca sarados,
de uma vida nunca vivida
há um bilhete nunca visto
com a explicação nunca dada
sobre o que muitos - ou poucos - nunca aceitarão.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Hoje acabo com minha autopiedade
Por ser capaz somente de nutrir o ódio
Abrigá-lo em minhas veias como veneno
Com amor, com o calor do meu corpo

- estranha dependência -
Encaro hoje minha sentença
Triste escrita
Irregular, restrita

Cai na desgraça de Narciso
Busquei palavras que me definissem
Que aplacassem o ódio e o descaso
Que me define hoje? Derrota? Cansaço?

Desperdiçando palavras em frente ao espelho
Recorro ao dicionário para oferecer ajuda
Aos livros para oferecer amor
E a culpa? Não encontrei bula que aplacasse essa dor.

Cássia Tavares.

terça-feira, 24 de maio de 2011

No peito havia um coração
- ou pensava que ainda havia -
batia tão descompassado
e hoje parecia tão cansado.
Os olhos vidrados
encaravam o teto e
a boca seca implorava
pelo vinho que ali pousava.
E na cabeça?
Ali havia nada mais que
a mais pura insanidade.
Ao ouvir a revoada dos pássaros
sentiu o coração chorar;
parando aos poucos
enquanto sua loucura via a vida passar:
Aquela vida que quis ter,
que sonhou em ter.
Viu tudo ali morrer,
segurando o lençol branco
como se esperasse que com sua pouca força
não a levariam.
Tentava deixar a alma ali,
prometendo refazer a vida, lutar pelos sonhos.
Mas a morte disse que não há mas tempo.
Morreu ali, velha e moribunda.
Viveu uma vida automática,
sem esperança.
Se arrependeu e nunca pode voltar atrás.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Sophia olhava para a sala vazia. Sem os móveis, estantes e posters o lugar parecia... Sem vida. As caixas se espalhavam a seu redor, quase todas já fechadas. As únicas que estavam abertas eram aquelas que abrigavam a base da vida dela: os álbuns de fotografia, os cadernos com textos e poemas e contos. Foram eles que seguraram ela durante esses quase seis anos. Sorria ao ler o que escrevia no auge de seus 15 anos. Sempre com um quê de Trevisan. Quando folheava os três livros inacabados, sorria por seu recém publicado. Afinal tinha conseguido tudo o que queria: O livro publicado, estava muito bem com Fernando e finalmente moraria em Porto Alegre. Mas ela não tinha noção do quão difícil era abandonar seu lar. Enxugou uma lágrima solitária que correu por seu rosto e terminou de embalar as coisas. Tinha que deixar o apartamento ainda hoje.

            Quando Fernando chegou, Sophia estava parada no meio da sala com uma mochila a seus pés. Ele ficou observando-a durante alguns minutos.
            - Tas calado hoje – ela estava rouca, como se não falasse a bastante tempo.
            - Só vim ver se tu tava bem.
            Ela se virou e sorriu pra ele, que abria os braços. Correndo, ela se atirou nele, quase o derrubando.
            - É muito... É difícil sair daqui. Um ano atrás eu planejava manter isso tudo. Me livrar disso é como arrancar um pedaço do meu coração. É... É estranho.
            - E compreensível. Qual é Sophia. Os melhores momentos da tua vida tu viveu aqui.
            - Eu sei...
            - E foi tua escolha vender o apartamento.
            Era verdade. Foi como o ultimo ato para se livrar do passado, da parte pesada que ainda ficava sobre ela. E ele sabia disso, mesmo sem perguntar. Mas mesmo assim era difícil. Notando as lágrimas nos olhos dela, Fernando tentou consolar-la.
            - Ei Soph... Pelo menos tu conhece quem comprou. Podes vir aqui matar a saudade. E eu te ajudo a fazer uma réplica exata lá em Porto Alegre.
            Ela riu. Levantou o rosto e ficou olhando para ele.
            - Eu não sei o que seria sem ti. Te amo tanto.
            Ele sorriu e a beijou, passando a mão pelos cabelos dela, do jeito que ela gostava.
            - Sophia – disse ele contra a boca dela – eu odeio interromper isso, mas eu tenho que fazer algumas fotos em quatro horas, então temos que ir.
            Ela respirou fundo e assentiu. Fernando pegou a mochila dela do chão e passou o braço por sobre os ombros dela. Do elevador, via sua sala. E ali, quase podia ver aquela Sophia loira desaparecendo aos poucos enquanto a porta de fechava, deixando ali a maioria dos monstros que a acompanharam durante todo esse tempo.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Soneto(?) de uma aula qualquer...

O que era sentimento
Tornou-se mecânico
Morreu na rotina
O desejo humano

Outro dia no calendário
Outra noite, sorriso raro
Riscam-se agendas
Aperta-se o passo

Se por hora o tempo corre
Não culpes a vida
Não culpes a morte

Se por hora não tens descanso
Pra tudo há remédio
Em tudo há encanto.

Cássia Tavares.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Muda.

Mil pensamentos voam
Palavras insuficientes
Malditos dias
De razão inexistente

E fez-se silencio
Partiu de repente
Qualquer assunto
Tornou-se incoerente

Não me queiras mal
Não me falta boa vontade
Simplesmente não cabe agora
Falarmos de saudade

E do lirismo planejado
Fiz-me vítima
Do discurso encomendado
Fiz minha própria agonia

E se escrever sobre amor for então minha sina?
Se de verso em verso vou perdendo a rima?
Se de fato descobrir que andei enganada?
Pois no fim das contas já não digo nada.

Cássia Tavares.

terça-feira, 5 de abril de 2011

17h. Segunda-feira. Olho no relógio, massageio a ponte do nariz e deixo de lado o grande livro de matemática. Malditos números, penso, nunca usarei eles pra nada. Caminho até o banheiro e encaro meu rosto no espelho. Bufo. Jogo água no rosto e seco com a toalha. Olho de novo para o espelho e noto que tem um “queixo na minha espinha”. Minhas olheiras parecem  dois socos embaixo dos meus olhos e ao soltar meu cabelo noto que ele está marcado. “Perfeito. Tudo o que eu precisava”. Caminho de volta para o quarto e olho o relógio; 17:30. Xingo baixo, pego um casaco – pelo frio que fazia lá fora - e saio correndo, mas paro de repente. “Merda, merda mesmo” penso enquanto volto e pego na gaveta o maço de cigarros, já pela metade. Enquanto saio de casa faço o coque mais desajeitado do mundo na cabeça e acendo um cigarro. Após algumas quadras chego na pequena praça. Sento no grande banco de metal e espero. Acendo outro cigarro e espero. Após meia hora, minhas mãos soam e acendo mais um – e prometo a mim mesma que o ultimo. Ao avistar a grande figura morena, imediatamente apago-o na sola da bota.
- Não tenta esconder, eu vi. Quando tu vai parar com essa porra hein?
Dou uma risadinha melancólica.
- Então – disse sentando-se ao meu lado – o que houve?
Olhei para o céu, para as poucas pessoas que ali passavam, para o chão. Só não olhei para os olhos que sempre gostei de encarar.
Sinto um toque leve e breve em minha mão e levanto os olhos. Vejo um sorriso lindo e verdadeiro na minha frente. Não consigo não sorrir junto.
- Por que isso acabou? – sinalizo nós – Era tão bom... Fácil... Natural... Hoje eu fico quase 18 horas por dia focada em algo que não entendo e nem quero. Passo sozinha todos os dias... Nunca me senti mais isolada, sem ninguém...
Só notei que estava chorando quando recebo um beijo na bochecha, para limpar uma lágrima que teimou em escapar de meu olho. Olho para minhas mãos e não resisto. Beijo aquela mesma boca.
- Desculpa. Eu não sei o que hou...
Sou interrompida. Por outro beijo. Com uma intensidade um tanto quanto... Boa.
- Meus pais estão viajando. Vâmo lá pra casa.
Levantei e passei o braço na cintura de quem eu mais precisava. Não importava para mim se fosse para sempre, ou só naquela noite.


ps. Modifiquei do texto original, por motivos de que não tô afim de aturar algumas coisas aí. Caso alguém queira a versão original, é só falar cmg que eu passo rs. (me senti importante falando isso)